terça-feira, 28 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

António Telmo




"Dizia Álvaro Ribeiro que a arte de filosofar (arte porque queria acentuar o papel da criação mental, da imaginação, da intuição e da indução) procurava o conhecimento pela tripla via gnósica, pística e sófica. O que António Telmo buscou toda a sua vida foi, não unicamente uma gnose (como o tentam os ocultistas e os esoteristas), mas uma harmonia entre a gnose e a razão ou melhor, a sophia ou a sabedoria abonada pela exigência intelectual da razão teórica."

António Quadros

Mithra/Sol Invictus

25 de Dezembro - Nascimento de Mithra, Sol Invictus
Museu do Vaticano



Templo a Mithra, Basilica de San Clemente, Roma

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Gnose - Sampaio Bruno



"A doutrina onde Orígenes mais se distingue pela originalidade é a Cosmologia. Admite, em face de Deus, a existência de um mundo eterno de almas ou de essências lógicas. Estas são livres e por isso capazes de mudança. Em consequência do mau uso que estas essências fazem da sua liberdade deu-se a Queda. As essências dividem-se em três categorias, conforme o peso da sua prevaricação: os anjos, os homens e os demónios. A Queda fez com que as almas recebessem corpos que, sem serem maus, são contudo a consequência do pecado."

"Entre Deus e as essências lógicas situa-se o Logos, espécie de intermediário que evita que Deus se ponha em contacto directo com as criaturas e que contudo permite a passagem do simples ao múltiplo. O Logos não é Deus no seu sentido pleno, é apenas divino, é Deus apenas por participação."

"O fim por que se move o Logos é o regresso de todos os seres ao seu estado primitivo. A educação progressiva do Logos levará as almas a usarem correctamente da sua liberdade e, por esse modo, serão restituídas a Deus. Esta restituição far-se-á por fases sucessivas e culminará num estado em que todas as essências lógicas estarão de novo com Deus, incluído os demónios e o diabo. Orígenes pensa que este ciclo de Queda e Ascensão não voltará a dar-se, porque as essências lógicas se encontrarão a si próprias no amor de Deus. Assim procura conciliar o amor de Deus e a liberdade das criaturas."


Sampaio Bruno

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010




Eleva-te acima de qualquer altura;
desce mais fundo que qualquer profundidade;
concentra em ti todas as sensações das coisas criadas;
da Água, do Fogo, do Seco e do Húmido.
Pensa que te encontras simultaneamente em toda a parte:
na terra, no mar e no céu;
pensa que não nasceste nunca, que és ainda embrião:
jovem e velho, morto e além da morte.
Compreende tudo ao mesmo tempo
- os tempos, os lugares, as coisas:
as qualidades e as quantidades.


Hermes Trismegistos
Corpus Hermeticum

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Drusos - História e Religião

História





Religião




"Ouvir música (espiritual) é uma influência divina que incita o coração a ver a Deus; aqueles que a ouvem espiritualmente chegam a Deus; os que a ouvem sensualmente caem na heresia."

Dhul-Nun al-Nisri
Séc. IX


"O Paraíso da Gnose está fechados para aquele cuja alma não morreu para o mundo, para o desejo de agir nele, de escolher, de possuir e gozar do mundo."

Mulay al-Arabi ad Darqawi

sábado, 4 de dezembro de 2010



"Os iniciados estão seguros de andar na companhia dos Deuses....Quem não é iniciado afunda-se na lama e somente quem tem percorrido a via mística penetra na eternidade."

Platão

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Autoconhecimento - H.P. Blavatsky



A primeira necessidade para obter-se conhecimento é tornar-se profundamente consciente da ignorância; sentir com cada fibra do coração que se é incessantemente auto-iludido.
O segundo requisito é a convicção ainda mais profunda de que tal conhecimento — tal conhecimento intuitivo e certo — pode ser obtido com esforço.
O terceiro e mais importante é uma indomável determinação de obter e confrontar este conhecimento.
Este autoconhecimento não é obtido pelo que o homem usualmente chama de "auto-análise". Não é alcançado pelo raciocínio ou qualquer processo mental; pois é o despertar para a consciência da natureza Divina do homem.
Obter tal conhecimento é um feito maior do que dominar os elementos ou conhecer o futuro.
 


Fonte: Collected Writings, H. P. Blavatsky, TPH, Índia, 1990, volume VIII, p. 108

quarta-feira, 17 de novembro de 2010



“Que os homens considerem quais são os verdadeiros fins do conhecimento
e que não o procurem nem pelo prazer da mente, nem pelo contentamento,
nem pela conquista de superioridade em face de outros, nem por proveito,
fama, poder ou qualquer outra dessas coisas inferiores, mas, para benefício
e uso da vida. E que o aperfeiçoem e o dirijam com caridade.”



Sir Francis Bacon

terça-feira, 16 de novembro de 2010



"Não escrevo com outro objectivo senão que o homem aprenda a conhecer a si mesmo".

Jacob Boehme

sexta-feira, 12 de novembro de 2010



Aquele que souber vencer os terrores da morte
tem direito a ser iniciado nos maiores Mistérios.

Grau de Iniciação de um Cavaleiro



"(...) em Portugal, os templários não foram destruídos; foi-lhes simplesmente pedido que mudassem de nome, tendo sido assim que se passaram a chamar Ordem de Cristo, consentindo em adoptar uma cruz branca para mostrarem que se tinham redimido dos seus erros. Esta Ordem de Cristo representa assim, sem qualquer corte, a transmissão regular da Ordem do Templo."

Papus

sábado, 6 de novembro de 2010



Tudo é útil na Vida Iniciática: a teoria e a prática, a leitura e a experiência, a discussão e o recolhimento, porém, quando há desequilíbrio, teoria explicativa demais e pouca prática, leitura demais e pouca experiência, discussões demais e pouco recolhimento, o esforço torna-se vão.

Raymond Bernard

quarta-feira, 3 de novembro de 2010



"O verdadeiro conhecimento baseia-se em tolerância verdadeira.
da tolerância verdadeira vem a compreensão plena, e a verdadeira compreensão dá nascimento à paz que ilumina e purifica."

Nicholas Roerich

Orígenes



"Que mal existe em ser culto, em amar os belos conhecimentos, em ser sábio e ser tido como tal? Qual o obstáculo que há nisso com relação ao conhecimento de Deus? Não são antes adjutórios para atingir a verdade?"

Orígenes in Contra Celsum

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Autognose - Álvaro Ribeiro

"Gnôthi séauton, nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo.
Este preceito helénico, insculpido no frontão do templo de Apolo, em Delfos, foi referido por Sócrates aos seus discípulos atenienses como princípio da arte de filosofar. Tal é, pelo menos, a versão que nos foi transmitida por Cícero no livro intitulado Tusculanas, com origem segura em antiga tradição.

(...)

Conhecer-se a si próprio é, efectivamente, conhecer-se como espírito. A energia primordial que assim é dada à consciência não deve, porém, ser confundida com o pensamento, segundo o erro de Descartes, nem com os princípios da lógica escolar, segundo o erro de Hegel. Ao conhecer-se a si próprio, gnosicamente, o homem adquire a certeza de que pensa e raciocina para se relacionar com o espírito universal, e esta certeza habilita-o a adquirir por consistência aquela virtude que denominamos fé. (...)"

Álvaro Ribeiro in "A Razão Animada"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sufismo



«Os sufis representam a tendência mística do Islão. Ao contrário da maioria dos muçulmanos, que acredita que a proximidade com Deus pode ser alcançada apenas após a morte, os sufis acreditam que é possível ter a experiência da proximidade de Deus em vida. De modo a alcançar esta proximidade, a pessoa necessita de fazer uma viagem, conhecida como tariqas (literalmente, "o Caminho"), sob orientação de um guia espiritual. A viagem requer que se façam orações extra, conhecidas como zikr (recordação de Deus). Os sufis também acreditam na "unidade do caminho" e defendem que todas as vias espirituais se dirigem a um só e ao mesmo Deus.

O sufismo surgiu cedo na história do Islão, como reacção contra o puritanismo e o legalismo árido. Hasan al-Basri (m. 728), que foi educado por Umm Salama, uma das mulheres do Profeta, estabeleceu-o como movimento. al-Basri declarou que os muçulmanos deveriam procurar a "doçura" durante a oração, ao recordar Deus e enquanto lêem o Alcorão.


O primeiro místico islâmico que se reconhece é Rabia al-Basri, cuja vida se encontra envolta em mistério. Sabemos que era uma escrava liberta e que se retirou para o deserto, onde viveu uma vida de pobreza. Rejeitou numerosas propostas de casamento; no entanto, aceitou Hasan al-Basri como aluno. É reconhecida pela sua poesia mística, alguma da qual se encontra hoje acessível ao público. A Rabia al-Basri atribui-se a noção de amor incondicional que se encontra presente na sua célebre oração: "Ó Deus, se rezo a Ti por medo ao inferno, então queima-me no Inferno. Se rezo a ti na esperança do Paraíso, exclui-me do Paraíso. Mas se rezo a Ti por Ti, não me negues a Tua infinita Beleza."


O objectivo da vida sufi é o alcançar fana, ou aniquilação do ego. O primeiro passo em direcção a fana é o abandono do materialismo. O termo sufi tem origem na palavra Suf, que significa "lã". Os sufis usavam mantos feitos a partir de lã não colorida como símbolo da sua renúncia ao mundo e aos seus prazeres. O incidente mais célebre relacionado com o alcance do estado de fana é atribuído a al-Hallaj (m.922). 


Enquanto se encontrava num estado de êxtase, Al-Hallaj proferiu as palavras: "Eu sou a Verdade." Tal levantou probelmas com as autoridades religiosas. Al-Hallaj recosou-se a pedir perdão; na realidade, reperiu a perfomance em várias ocasiões. No final, por insistênci sua, foi executado.

A história muçulmana encontra-se cheia de grandes místicos sufis. O andaluz ibn Arabî (m.1240) é considerado um dos maiores de todos os tempos. O sufi turco Jalal-al-Din Rumî (m.1273) tem uma reputação semelhante. Estes ilustres sufis estabeleceram as suas próprias tariqas, que ainda hoje são seguidas pelos seus discípulos.

sufismo tem sido um grande estímulo para a poesia e a literesatura.Mathnavi, por Rumî, que se encontra repleto de parábolas e histórias, é lido extensivamente poir muçulmanos em toda a parte. Poesia persa e urdu de extrema qualidade têm origem no sufismo, por exemplo, a obra de Omar Khayyam (m. 1124), Sadi (m.1292), Hafiz (m. 1390) e, mais recentemente, Mohammad Iqbal (m.1938).»

Excerto do livro "Em que acreditam os Muçulmanos?" de Ziauddin Sardar

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Max Heindel: Em Busca do Templo Ignoto - António de Macedo




Max Heindel (1865-1919), um investigador e místico dinamarquês emigrado para a Escócia e mais tarde para os estados Unidos, tinha perfeita consciência desse sério escolho. Filho de pai alemão e mãe dinamarquesa, nasceu em Aarhus,  Dinamarca, em 23 de Julho de 1865 e o seu nome de baptismo era Carl Louis Fredrik von Grasshoff. Aos 16 anos partiu para Glasgow, na Escócia, onde estudou engenharia; viajou pelo mundo na qualidade de engenheiro chefe dum vapor comercial e entre os anos de 1895 e 1901 foi engenheiro consultivo na cidade de Nova York. Em 1903 mudou-se para Los Angeles e pôde dar largas aos estudos e investigações que o fascinavam, de metafísica e gnose espiritual. Adoptou o pseudónimo de Max Heindel e quando decidiu viajar de regresso à Europa, em 1907, para tentar descobrir os misteriosos Irmãos da Rosacruz, já tinha concluído que não servia de nada ler dezenas ou mesmo centenas de livros e estudar todos os rituais iniciáticos se quisesse atingir a iluminação.
Começara por se deixar cativar pelos ensinamentos de Helena Petrovna Blavarsky (1831-1891), e durante dois anos - 1904 e 1905 -, chegou a ser vice-presidente da Loja de Los Angeles da Sociedade Teosófica. Depressa porém se deu conta do confuso sincretismo das doutrinas «teosófica»(64) e da inextricável mistura de tradições que propugnam, como se Judaísmo, Cristianismo, Budismo e Hinduísmo se pudessem harmonizar rasteiramente na «base da Montanha», Insatisfeito com esta amálgama, Max Heindel pressentiu que o caminho do ocidente (a Via, a Verdade e a Vida») estaria traçado a partir do Alto da Montanha Sagrada na linhagem da Sabedoria Cristã, quer mística quer iniciática, e não numa mescla de tradições; abandonou a Sociedade Teosófica e empenhou-se numa nova busca.
Teve conhecimento que na Alemanha se evidenciava então um instrutor cujas conferências e cujos ensinamentos pareciam coincidir com a senda que aspirava percorrer: tratava-se de Rudolf Steiner (1861-1925), cientista, escritor e mais tarde fundador do movimento espiritual e filosófico conhecido por Antroposofia(65). Também Rudolf Steiner fora atraído pelas doutrinas de Madame Blavatsky, que ao contrário do que propalam os seus muitos detractores, e apesar da notória falta de sistematização dos seus escritos - de que sobressaem Isis Unveiled (1877) e TheSecret Doctrine (1888) -, vislumbrou verdades e conotações tradicionais com assinalável argúcia e desenvolveu pontos de vista audaciosos - comprováveis em muitos casos pelo seu copioso conhecimento das fontes - que justificam a considerável influência que exerceu na sua época e bastante depois.
Muito erros espalhou, sem dúvida, e as verdades que enuncia apresentam-se, por vezes, «disformes pelas turvações duma alma agitada de paixões diversas, de tal sorte que essas verdades assim reflectidas criam o efeito duma paisagem maravilhosa num espelho convexo», conforme observou Édouard Schuré na sua introdução à edição francesa de Das Christenthum als mystische Thatsache de Rudolf Steiner(66), mas não é totalmente correcto dizer-se, como faz Umberto Eco pela boca duma personagem de O Pêndulo de Foucault, que Madame Blavatsky se limitou a repetir, sob a falaz roupagem de coisa oculta, conhecimentos e pseudoconhecimentos que andavam por aí ao alcance de qualquer um(67).
Steiner contactou em 1897 uma filial da Sociedade teosófica, mas tal como Max Heindel, não prosseguiu essa via ao reconhecer que a senda da Sabedoria Ocidental não estaria em doutrinas budistas ou hinduístas, mas sim na tradição Cristã. Entretanto conseguira chegar ao alcance dos Mestres da Rosacruz, cujos ensinamentos absorveu preparando-se para empreender a magna tarefa de constituir uma Escola de Ocultismo a fim de ser transmitida, aos eleitos, a Iniciação Rosacruciana.
E é em Berlim que Max Heindel o encontra, no Outono de 1907, na sequência da viagem que empreendera, desde a América, arrastado pela sua ânsia de conhecimento místico e pela fama internacional de que já desfrutavam nessa época os cursos de Rudolf Steiner. Max heindel frequentou esses cursos e teve várias entrevista com Steiner mas logo se deu conta de que os ensinamentos deste não acrescentavam nada ao que já sabia. Entre a desilusão e uma inequívoca admiração pela personalidade e pelos conhecimentos daquele instrutor, Max Heindel decidiu-se pelo regresso à América, e foi então que, ainda em Berlim e quando se aprestava a partiu, recebeu inesperadamente a visita de um doze Irmãos (Fratres Seniores) da Ordem Rosacruz, um dos Hierofantes dos Mistérios, que se prontificou a transmitir-lhe os ensinamentos desde que se comprometesse e mantê-los em segredo.
Durante anos Max Heindel buscara incansavelmente e suplicara aos céus que lhe fosse concedido algo que lhe permitisse mitigar a sede de luz espiritual que o mundo tanto anseia. Sabendo por experiência própria o que é sofrer devido à ânsia de conhecimento, foi incapaz de satisfazer o pedido do Irmão Maior, e recusou aceitar o que quer que fosse que não pudesse partilhar com os seus irmãos no mundo, que sabia tão animicamente famintos como ele.
O Mestre abandonou-o.
Podeis imaginar o que sente um homem que durante tanto tempo esteve privado de alimento, e repentinamente aparece alguém a oferecer-lhe uma côdea de pão, e logo se retira sem lhe permitir que a prove?
[...]
No meio do seu desespero e da frustração de ter perdido tempo e dinheiro numa viagem inútil, apareceu-lhe o Mestre de novo ao fim de cerca de um mês, e disse-lhe que tinha passado a prova do egoísmo: se tivesse aceite a oferta de guardar os conhecimentos sem os partilhar, ele, o Mestre, não teria regressado"
Disse-lhe também que houvera um primeiro candidato escolhido pelos Irmãos Maiores que recebera instruções durante vários anos mas que falhara a prova em 1905, e que sendo ele, Max Heindel, o segundo candidato em vista, os Mestres se haviam servido do primeiro - que não era outro senão o próprio Steiner - como isco para o atrair à Alemanha.
Após várias entrevistas, o Frater Senior deu-lhe as instruções necessárias para encontrar o Templo da Rosacruz nas imediações duma aldeia chamada Kirchberg, que nesse tempo se situava em território alemão, perto da fronteira com a Boémia. Max Heindel esteve durante mais de um mês, no Templo, em comunicação directa com os Mestres por quem foi iniciado, ficando encarregado de disseminar no Ocidente os respectivos Ensinamentos da Nova Era Cristã.
Quando entrou pela primeira vez no Templo da Irmandade Rosacruz, Max Heindel surpreendeu-se: na sua imaginação havia figurado esse centro como uma imponente e magnífica estrutura, e o que viu era exactamente o oposto. Foi convidado a entrar no que parecia ser a casa rural, modesta embora espaçosa, de um cavalheiro da província, residência que ninguém associaria à sede mundial de um tão antigo quão poderoso grémio de místicos. Centenas de homens e mulheres, levados pela curiosidade, têm percorrido a Alemanha na esperança de encontrar esse edifício e passam por ele sem o ver, porque, tal como Max Heindel, imaginam-no como um Templo grandioso de pedra e materiais nobres. E Heindel só o descobriu quando os seus olhos se abriram para vislumbrar o Templo espiritual a interpenetrar e a envolver a estrutura física(69).
Ao regressar aos Estados Unidos Max Heindel redigiu e publicou em 1909, em Chicago, um volumoso tratado sob inspiração directa dos Irmãos Maiores, The Rosicrucian Cosmo-Conception(70), e mais tarde fundou em Oceanside, na Califórnia, uma Escola preparatória, The Rosicrucian Fellowship a qual, convém deixar bem explícito desde já, não é a Escola de Mistérios Rosacruzes, é apenas uma escola no mundo visível que prepara todo aquele que aceite percorrer os progressivos e ordenados passos que o hão-de conduzir àquela elevada Escola de Mistérios. E interessante notar que Rudolf Steiner publicou em Leipzig, em 1910, um dos seus livros mais importantes, Die Geheimwissenschaft im Umriss («A Ciência Secreta em Esboço»), com desenvolvimentos doutrinários e passagens inteiras que parecem extraídos para não dizer copiados de The Rosicrucian Cosmo-Conception, publicado como vimos no ano anterior. Pessoalmente não creio que tenha havido plágio, incluso de Max Heindel que poderia ter aproveitado os apontamentos dos cursos e das conferências de Steiner a que assistira em Berlim: e não creio que isso tenha acontecido não só atendendo à estatura moral, espiritual e intelectual dos dois homens, como também ao que sobressai do conjunto das respectivas obras. Por muito estranho que pareça esta é também a opinião, ainda que relutante, do avinagrado René Guénon(71)que dnha um ódio vesgo contra tudo o que lhe cheirasse a «teosofismo» - termo que utiliza para o distinguir da autêntica teosofia tradicional e lhe serve de rótulo a um estendal de concepções e doutrinas de que discorda e vão de Madame Blavatsky a Alice Bailey, passando pelos ditos Heindel e Steiner. Se Guénon reconhece que nenhum deles plagiou, podemos estar seguros de que assim foi. A única explicação plausível, portanto, e que só pode ser a verdadeira, é que tendo tido ambos os mesmos Mestres Rosacrucianos, as suas obras e respectivos ensinamentos hão-de apresentar determinadas semelhanças; mas ao passo que Max Heindel se manteve fiel à tradição Cristã e Rosacruz, Steiner a breve trecho se desviou introduzindo no seu sistema elementos espúrios.
Lendo e estudando The Rosicrucian Cosmo-Conception e outros livros que Max Heindel escreveu, como Letters to Stundents, The Rosicucian Mysteries, Gleanings of a Mystic, Web of Destiny, Mysteries of the Great Operas, Teachings of an Initiate, etc.(72), dei-me conta duma sensação nova, muito forte e muito real, depois de tanto tempo andar errante à procura da Fonte ou de quem quer que dela directamente tivesse haurido: eis-me pela primeira vez em contacto - admirável, ardente e afectuoso contacto! - com alguém que «tinha lá estado».
O que Max Heindel descrevia possuía o incontestável cunho da sinceridade, era a expressão apaixonada e genuína de quem fora admitido aos Mistérios e subira os luminosos degraus, as observações eram autênticas, plenas, nada de palavreado vazio e inane, era a voz revelada e reveladora dum surpreendente rol de «reportagens» vividas e cheias de emoção mística... - não à maneira do filósofo-visionário Emanuel Swedenborg (1688-1772), que descreve miudamente as suas explorações pelas inúmeras moradas invisíveis e pelos graduais planos dos céus e dos infernos por onde o seu espírito andou (teria andado?), com a clínica frieza do médico legista a dissecar corpos peça a peça -, mas à maneira quase duma criança a relatar em tom cândido e fácil, sem surpresas e com aceitação, uma deslumbrante, diáfana, experiência nova. Não deixa de ser elucidativo o primeiro parágrafo, na primeira página, com que abre The Rosicrucian Cosmo-Conception:
O fundador da Religião Cristã proferiu uma máxima oculta quando disse: «Em verdade vos digo, quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha nele não entrará» (Mc 10, 15). Todos os ocultistas reconhecem a imensa importância deste ensinamento de Cristo e esforçam-se por vivê-lo dia a dia.
Sobretudo é quase comovente senti-lo ansioso, a ele Max Heindel, por partilhar, com quem esteja disposto ao esforço ascensional, o segredo dos caminhos que se hão-de sofrer e seguir e que se revelam afinal tão claramente traçados nas Escrituras cristas. Aceitei o convite, embora - ai de mim! - a lonjura do horizonte e a vastidão da esfera sejam tão de mais para a minha pequenez.
Mas toda a jornada começa sempre por um primeiro dia, infante, de escola.
E por falar em escola, volto um pouco atrás para frisar que aquela Escola preparatória - The Rosicrucian Fellowship, conforme citei -, fundada por Max Heindel por inspiração dos Irmãos Maiores, representa um arranque inteiramente novo na obra da Ordem Rosacruz (73) , e é dirigida invisivelmente pelos mesmos Irmãos Maiores da Ordem sob a direcção de Christian Rosenkreuz, ou do Grão-Mestre incógnito que adoptou este nome simbólico, sendo assim a referida Escola como que uma «reencarnação», no mundo visível, da antiga Ordem Rosacruz instituída por Rosenkreuz. Trata-se portanto duma ressurgência decidida a partir dos Planos Superiores: por outras palavras, apareceu mediante renascimento num local inteiramente novo, a fim de transmitir os Ensinamentos da Sabedoria Ocidental às populações do Ocidente. Não pretende descender em linha recta ou oblíqua - tal como outras sociedades se arrogam - de quaisquer lojas rosacrucianas anteriores, existentes na América, na Inglaterra, em França, no Egipto ou em outros locais, por muitos antigas que sejam - e quanto mais antigas e extintas pior, como vimos. The Rosicrucian Fellowship está em permanente ligação directa com o Templo etérico da Ordem Rosacruz em virtude de ser o canal ou instrumento autorizado da Ordem para a Era actual (74).

«Tanto Helena P. Blavatsky como Max Heindel ofereceram as suas vidas em serviço às necessidade espirituais da raça. Cada um deixou como legado às gerações vindouras uma literatura metafísica que sobreviverá ás vicissidades dos tempos».
Manly P. Hall (33.º Rito Escocês)

_______
Notas:
(64) Os termos «teosofia» e «teosófico» devem com legitimidade aplicar-se a uma corrente espiritual que abrange século de existência e conta com nomes tão diferentes e tão profundos como Meister Eckehart, Nicolau de Cusa, Paracelso, Giordano Bruno, Jacob Bohme, Johann Georg Gichtel, Swedenborg, Eckartsusen, Friedrich Schelling, entre outros, além dos mais conceituados autores do Iluminismo Rosacruz a que me referi mais atrás. A expressão «teosofia» (sabedoria de Deus) foi usada pela primeira vez no século II por Ammonio Saccas de Alexandria, mestre de Orígenes, que a foi buscar a Paulo: «Nós prègamos um crucificado; para os judeus, escândalo; para os gentios, escultícia; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, fortaleza de Deus e sabedoria de Deus [gr. Theou sophian]» (1Cor 1, 24), e também: «Sabedoria, sim, falamos entre os perfeitos; não sabedoria deste mundo nem dos chefes deste mundo, condenado a perecer, mas sabedoria de Deus [gr. theou sophian] em mistério, a oculta, que Deus predestinou dos séculos para glória nossa»(1Cor. 2, 7). - A sociedade que Helena P. Blavatsky fundou em Nova York em 1875 começou por ser uma sociedade espírita, e o nome The Theosophical Society foi-lhe dado pelo seu tesoureiro, Henry J. Newton, que na verdade ignorava o real significado daquela palavra. Registe-se, como curiosidade, que a Igreja católica condenou a Sociedade Teosófica em 1919.
(65) É possível que Steiner se tenha inspirado no título duma obra do Rosacruciano Eugenius Philalethes, pseudónimo de Thomas Vaughan: Anthroposophia Magia, Oxford 1650.
(66) Édouard Schuré, «Introduction» apud Rudolf Steiner, Le Mystère chrétien et les Mystères antiques (Das Christenthum als mystische Thatsache, Berlim 1902), trad. e introd. de E. Schuré, Paris 1908, pp. 28-29.
(67) O lâma Kazi Dawa Samdup (1868-1923), mestre tibetano que atingira um elevado grau de conhecimentos e que 1919 traduziu para inglês com colaboração com Prof. W.Y.Evans-Wentz o Bardo Thodol («Livro dos Mortos Tibetano»), considerava que a despeito das críticas que lhe eram dirigidas, H.P.Blavatsky teria incontestavelmente recebido um ensino lamaico superior, tal como ela dirigidas, H. P. Blavatsky teria incontestavelmente recebido um ensino lamaico superior, tal como ela prendia (cf. a introdução de Evans-Wentz a The Tibetan Book of the Dead, nota de rodapé na p. vi). - Fernando Pessoa já suspeito o mesmo escreveu: «Os caminhos do simbolismo, sobretudo desde que se entra na estrada mística ou interpretativa, são cheios de ilusões, de devaneios e de fraudes. […] É fora de dúvida que Madame Blatsky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de Superiores Incógnitos» (Yvette K. Centeno, Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética - Fragmentos do espólio, Lisboa 1985. pp. 51-52).
(68) Augusta Foss Heindel, Memoirs about Max Heindel and The Rosicrucian Fellowship, Oceanside 1997.
(69) Augusta Foss Heindel, op.cit., p.7. - Gostaria de salientar que a Autora utiliza a expressão Templo espiritual no sentido anagógico ou transcedental, referindo-se ao conteúdo; quando à matéria, o Templo é etérico. Sabe-se que esse templo, invisível aos olhares profanos, se situa a 50º de Lat-Norte e 13º de Long-Este, ou seja, na actual república Checa, alguns a Nordeste de Marianske Lazne (antiga Marienbad) e a Sueste de Karlovy Vary.
(70) Existe em português com o título: Conceito Rosacruz do Cosmo.
(71) René Guénon, Le Théosophisme: Histoire d'une Pseudo-Religion (1921), nova ed. aumentada Paris 1986, p. 221.
(72) Além do Conceito Rosacruz do Cosmo, os livros mencionados estão traduzidos em português com os títulos: Cartas aos Estudantes, Os Mistérios Rosacruzes, Colectâneas de um Místico, A Teia do Destino, Mistérios das Grandes Óperas, Ensinamentos de um Iniciado, etc.
(73) Cf. «Rosicrucian Societies in America », in Rays from the Rose Cross, vol. 88, n.º 4, July/August 1996.
(74) Max Heindel, The Rosicrucian Cosmo-Conception or Mystic Christianity (1909), reed. Oceanside 1977, pp. 530-532.



António de Macedo 
Instruções Iniciáticas
Hugin, Lx, 2000


quarta-feira, 27 de outubro de 2010




Homem de Desejo, Irmão desconhecido, tu que marchas para Tebas, em qualquer região das nossas terras onde te encontrares, é em ti e é a ti que me dirijo, porque, nos desertos preparatórios, aprendeste a nossa língua materna e os verbos primitivos dos nossos Anciãos, como nós, de luminosas tochas, ó viajante desconhecido a quem amo como um irmão.

Marc Haven

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Metafísica Oriental - René Guénon


A Metafísica Oriental

por 

René Guénon




Tomamos, como tema desta exposição, a metafísica oriental; teria sido melhor, talvez, dizer simplesmente a metafísica, sem qualificativos, pois na verdade a metafísica pura, situando-se, por essência, acima e além de todas as formas e todas as contingências, não é nem oriental nem ocidental: é universal. Somente as formas exteriores — com as quais ela se reveste para atender às necessidades de exposição, para exprimir o quanto, nela, seja exprimível — somente tais formas é que podem ser orientais ou ocidentais; mas, sob a diversidade delas, é um fundo idêntico que se reencontra por toda a parte e sempre, ao menos, onde haja metafísica verdadeira, e isto pela simples razão de que a Verdade é uma e única. 
            
                     Se assim é, por que falar especificamente de metafísica oriental?  É que, nas condições intelectuais em que se encontra atualmente o mundo ocidental , a metafísica é  nele coisa esquecida , geralmente ignorada e quase que inteiramente perdida, enquanto que no Oriente ela é, ainda e sempre, objeto de um conhecimento efetivo. Se desejamos saber o que é a metafísica, é portanto ao Oriente que devemos nos dirigir; e, mesmo que desejemos reencontrar alguma coisa das antigas tradições metafísicas que tenham podido existir no Ocidente, — num Ocidente que, sob muitos  aspectos, estava então muito mais próximo do Oriente do que está hoje —, será sobretudo com a ajuda das doutrinas orientais, e mediante comparação com elas, que poderemos chegar a tanto, porque essas doutrinas são as únicas que, no domínio metafísico, ainda podem ser estudadas diretamente. Só que, para isso, é evidente que se deve estudá-las tal como o fazem os orientais mesmos, e não entregando-se a interpretações mais ou menos hipotéticas, e às vezes inteiramente fantasistas;  costuma-se esquecer, com demasiada freqüência, que as civilizações orientais ainda existem, e que possuem ainda representantes qua¬lificados, junto aos quais bastaria informar-se para saber verdadeiramente do que se trata. 
    
                     Dissemos  "Metafísica oriental'; e  não  "Metafísica hindu"  unicamente,  porque as   doutrinas dessa ordem, com tudo aquilo que implicam, não se encontram somente na Índia, ao contrário do que parecem crer alguns, que de resto mal se dão conta da sua verdadeira natureza. O caso da Índia não é de forma alguma excepcional sob esse aspecto; é exatamente o mesmo de todas as civilizações que possuem aquilo que se pode chamar uma base tradicional. O que é excepcional e anormal, ao contrário, são civilizações desprovidas de tal base; e, para dizer a verdade, só conhecemos um único caso desses, que é o da civilização ocidental moderna. Tomando em consideração somente as principais civilizações do Oriente, o equivalente da metafísica hindu encontra-se na China, no Taoísmo; encontra-se também, por outro lado, em certas escolas esotéricas do Islam (deve ficar bem entendido, aliás, que esse esoterismo  islâmico nada tem de comum com a filosofia externa dos árabes, na maior parte de inspiração grega). A única diferença é que, fora da Índia, tais doutrinas são reservadas a uma elite mais restrita e mais fechada; foi também o que se deu no Ocidente, na Idade Média, num esoterismo comparável, sob muitos aspectos, ao do Islam e tão puramente metafísico quanto este, mas de cuja existência os modernos, na maior parte, sequer suspeitam. Quanto à Índia, não é possível falar de esoterismo, no sentido próprio da palavra, porque lá não se encontra uma doutrina de duas faces, uma exotérica outra esotérica; o que pode ocorrer é simplesmente um esoterismo natural, no sentido de que cada um se aprofundará  mais ou menos na doutrina e irá mais longe ou menos longe conforme a medida das suas possibilidades intelectuais, desde que há, para certas individualidades humanas, limitações que são inerentes à sua natureza mesma, e que lhes é impossível superar. 

                     Naturalmente, as formas mudam de uma civilização para outra, pois que devem ser adaptadas a condições diferentes; mas, embora mais acostumado às formas hindus, não tenho nenhum escrúpulo em empregar outras em caso de necessidade, quando podem contribuir para a compreensão de certos pontos; não há nisto nenhum inconveniente, já que se trata, afinal, de diferentes expressões da mesma coisa. Novamente, aqui, a verdade é uma, e é a mesma para todos aqueles que, por qualquer via que seja, tenham chegado ao seu conhecimento.       

                    Dito isto, convém entendermo-nos quanto ao sentido que se deve dar aqui à palavra "metafísica", tanto mais que tenho tido freqüentemente a ocasião de constatar que nem todo mundo a compreende da mesma maneira. Penso que o melhor a fazer com as palavras que podem dar margem a algum equívoco é restaurar, tanto quanto possível, sua significação primária e etimológica. Ora, de acordo com sua composição, a palavra “metafísicia” significa literalmente  "além da física", tomando-se a palavra "física" na acepção que ela sempre tinha para os antigos, que era a de "ciência da natureza" em toda a sua generalidade.  Física é o estudo de tudo aquilo que pertence ao domínio da natureza; o que diz respeito à metafísica é aquilo que está para além da natureza. Como então podem alguns alegar que o conhecimento metafísico é um conhecimento natural, seja quanto ao seu objeto, seja quanto às faculdades pelas quais esse conhecimento é obtido? Há nisto um verdadeiro contra-senso, uma contradição nos próprios termos; e entretanto, o que é mais assombroso, acontece que essa confusão é cometida por aqueles mesmos que deveriam ter conservado alguma idéia da verdadeira metafísica e saber distingui-la mais nitidamente da pseudo-metafísica dos filósofos modernos. 

                  Mas, dirão, se essa palavra "metafísica" dá margem a tais confusões, não valeria mais renunciar ao seu emprego e substituí-la por uma outra que apresentasse menos inconvenientes? Na verdade isso seria desaconselhável, já que, por sua formação, essa palavra convém perfeitamente àquilo de que se trata — e de resto não é possível fazê-lo, porque as línguas ocidentais não possuem nenhum outro termo que seja tão bem adaptado a esse uso. Empregar pura e simplesmente a palavra "conhecimento", como se faz na Índia, — uma vez que se trata, com efeito, do conhecimento por excelência, o único absolutamente digno desse nome — é algo que não se deve nem pensar; pois isso seria ainda menos claro para os ocidentais, que, em matéria de conhecimento, estão habituados a não ter em vista nada fora do conhecimento científico e racional. - E, afinal, será necessário preocuparmo-nos tanto com o abuso que se fez de uma palavra? Se devêssemos rejeitar todas as palavras que estão nesse caso, quantas restariam ainda à nossa disposição? Não bastará tomarmos as precauções devidas para afastar os enganos e os mal-entendidos? Não temos pela palavra "metafísica" um apego maior do que por qualquer outra; mas, enquanto não nos houverem proposto  um melhor termo para substituí-lo, continuaremos a nos servir dele, como o temos feito até agora. 

               Infelizmente, há pessoas que têm a pretensão de "julgar" aquilo que ignoram, e que, por darem o nome de "metafísica” a um conhecimento puramente humano e racional (o que, para nós, não é senão ciência ou filosofia), imaginam que a metafísica oriental não seja nada mais do que isso, nem nada de diferente disso, - e daí tiram logicamente a conclusão de que essa metafísica não pode conduzir  realmente a tais ou quais resultados Todavia, é a esses resultados que ela conduz efetivamente, mas por ser uma coisa totalmente diversa daquilo que supõem; tudo aquilo que eles têm em vista não possui verdadeiramente nada de metafísico, desde que não é mais do que um conhecimento de ordem natural, um saber profano e exterior; não é de nada disso que desejamos falar. Tomaríamos, então, "metafísica" como sinônimo de "sobrenatural"? Aceitaríamos de bom grado tal assimilação, de vez que, enquanto não ultrapassamos a natureza, isto é, o mundo manifesto em toda a sua extensão (e não apenas o mundo sensível, que não é, dele, senão um elemento infinitesimal), estamos ainda no domínio da física; o que é metafísico, como dissemos, é aquilo que está além e acima da natureza, é portanto, propriamente o "sobrenatural". 

                Mas, sem dúvida, farão aqui uma objeção: será possível ultrapassar assim a natureza? Não hesitaremos em responder de maneira bastante nítida: não somente isso é possível, mas isso é.   Não passa de uma afirmação, dirão ainda: que provas se poderia oferecer disso? É verdadeiramente estranho que alguém peça provas da possibilidade de um conhecimento, em vez de tentar averiguá-lo por si mesmo mediante o trabalho necessário para adquiri-lo. Para quem possui tal conhecimento, que interesse e que valor podem ter todas essas discussões? O fato de substituir a "teoria do conhecimento" ao conhecimento mesmo é talvez a mais bela declaração de impotência da filosofia moderna. 

                 Existe, aliás, com toda certeza, alguma coisa de incomunicável; ninguém pode atingir realmente um conhecimento qualquer senão através de um esforço estritamente pessoal, e tudo o que um outro pode fazer é mostrar-lhe a ocasião e os meios de lá chegar. Eis porque, na ordem puramente intelectual, seria vão pretender impor qualquer convicção; a melhor argumentação não poderia, no caso, substituir o conhecimento direto e efetivo. 

                Agora: pode-se definir a metafísica, tal como a entendemos? Não, porque definir é sempre limitar, e aquilo de que se trata é, em si, verdadeiramente e absolutamente ilimitado, portanto não poderia deixar-se encerrar em nenhuma fórmula e em nenhum sistema. Pode-se caracterizar a metafísica de uma certa maneira, por exemplo dizendo que ela é o conhecimento dos princípios universais; mas isto não é propriamente uma definição e, de resto, não pode dar senão  uma idéia bastante vaga do que seja metafísica. Acrescentaríamos alguma coisa se disséssemos que o domínio dos princípios se estende muito mais longe do que pensaram certos ocidentais, — que entretanto fizeram metafísica, mas de uma maneira parcial e incompleta.  Assim , quando Aristóteles encarava a metafísica como o conheci¬mento do ser enquanto ser, ele a identificava com a ontologia, isto é, tomava a parte pelo todo. Para a metafísica oriental, o ser puro não é o primeiro nem o mais universal dos princípios, pois ele é já uma determinação; é preciso portanto ir além do ser, e aí está realmente aquilo que mais importa. Eis por que, em toda concepção verdadeiramente metafísica, deve-se sempre reservar a parte do inexprimível; e, com efeito, tudo o que se  pode exprimir não é literalmente nada em vista  daquilo que ultrapassa toda expressão, tal como o finito,  qualquer que seja a sua grandeza, é nulo em face do infinito. Podemos sugerir, muito mais do que exprimir, e este é, em suma, o papel que desempenham aqui as formas exteriores; todas essas formas, trate-se de palavras ou de símbolos quaisquer, não constituem mais do que um suporte, um ponto de apoio para nos elevarmos a possibilidades de concepção que as ultrapassem incomparavelmente; voltaremos a este assunto logo mais. 

                  Falamos de concepções metafísicas, por falta de outro termo à nossa disposição para nos fazermos compreender; mas não se vá crer, por isso, que exista nesse termo algo de assimilável à concepções científicas ou filosóficas; não se trata de operar "abstrações" quaisquer, mas de tomar um conhecimento direto da verdade tal como ela é. A ciência é o conhecimento racional, discursivo, sempre indireto, um conhecimento por reflexo; a metafísica é o conhecimento supra-racional, intuitivo e imediato.Essa intuição intelectual pura, sem a qual não existe metafísica verdadeira, não deve aliás, de maneira alguma , ser assimilada à intuição de que falam certos filósofos contemporâneos, pois esta é, ao contrário, infra-racional. Existe uma intuição intelectual e uma intuição sensível; uma está além da razão, mas a outra está aquém; esta última não pode apreender senão o mundo da mudança e do devir, isto é, a natureza, ou antes, uma ínfima parte da natureza. O domínio da intuição intelectual, ao contrário, é o domínio dos princípios eternos e imutáveis; é o domínio metafísico. 

                O intelecto transcendente, para apreender diretamente os princípios universais, deve ser ele mesmo de ordem universal: já não é mais uma faculdade individual, e considerá-lo tal seria contraditório, pois não pode estar nas possibilidades do indivíduo o ultrapassar seus próprios limites, sair das condições que o definem enquanto indivíduo. A razão é uma faculdade propriamente e especificamente humana; mas aquilo que está para além da razão é verdadeiramente "não-humano" ; é  isto o que torna possível o conhecimento metafísico, e este, há que repeti-lo, ainda não é um conhecimento humano. Em outros termos, não é enquanto  homem que o homem pode chegar a ele; mas  sim na medida em que esse ser, que é humano em um de seus estados, é ao mesmo tempo outra coisa e mais que   ser humano; e é a tomada de consciência efetiva dos estados supra-individuais que é o objeto real da metafísica, ou, melhor ainda, o conhecimento metafísico mesmo. Chegamos aqui portanto a um dos pontos mais essenciais, e é necessário insistir: se o indivíduo fosse um ser completo, se ele constituísse um sistema fechado à maneira da  mônada de Leibniz, não haveria metafísica possível; irremediavelmente encerrado em si mesmo, esse ser não teria nenhum outro meio de conhecer aquilo que não fosse da ordem  de existência à qual pertencesse. Mas de fato não é assim: o indivíduo não representa, na realidade, mais do que  uma manifestação transitória e contingente do ser verdadeiro; ele não é mais do que um estado específico entre uma multidão indefinida de outros estados do mesmo ser e este ser é, em si, absolutamente independente de todas as suas manifestações, do mesmo modo que, para empregar uma comparação que volta a cada instante a aparecer nos textos hindus, o sol é absolutamente independente das múltiplas imagens nas quais se reflete. Tal é a distinção fundamental do "Si" e do "eu", da personalidade  e  da individualidade; e, do mesmo modo que as imagens estão religadas pelos raios luminosos à fonte solar sem  a qual não teriam nenhuma existência nem realidade, do mesmo modo a individualidade - trate-se, aliás, da  individualidade humana ou de qualquer outro estado análogo   de manifestação—está religada à personalidade, ao  centro principial do ser, por meio desse intelecto transcendente que acabamos de mencionar. Não é possível, nos limites desta exposição, desenvolver mais completamente essas considerações, nem dar uma idéia mais precisa da  teoria dos estados múltiplos do ser; mas, penso, entretanto,  já ter dito o bastante a esse respeito para, ao menos, fazer pressentir a sua importância capital em toda doutrina verdadeiramente metafísica. 

                 Teoria, dissemos, mas não é apenas de teoria que  se trata, e este é ainda um ponto que pede explicação.  O conhecimento teórico, que ainda não passa de um conhecimento indireto e de certo modo, simbólico, não é mais que uma preparação, aliás indispensável, do verdadeiro conhecimento. Ele é, além do mais, o único que é comunicável, de certo modo, e mesmo assim não completamente; eis por que toda exposição não é mais do que um meio de abordar o conhecimento, e este conhecimento, que não é, de início, mais do que virtual, deve em seguida ser realizado efetivamente. Encontramos aqui uma nova diferença em relação àquela metafísica parcial a que fizemos alusão anteriormente, a de Aristóteles por exemplo, já  teoricamente incompleta por limitar-se ao ser, e na qual, além do mais, a  teoria parece ser apresentada como algo que se bastasse a si mesmo, em lugar de ser ordenada expressamente  em vista de  uma realização correspondente, assim como sempre o é em todas as doutrinas orientais. Entretanto, mesmo nessa metafísica imperfeita seríamos tentados a dizer, nessa semi-metáfísica,  encontramos  às   vezes afirmações que, se tivessem sido compreendidas,   deveriam ter conduzido à conseqüências inteiramente outras: assim, Aristóteles não chega a dizer nitidamente que um ser é tudo aquilo que ele conhece? Esta afirmação   da  identificação pelo conhecimento é o princípio mesmo da realização metafísica; mas, no caso, esse princípio permanece isolado, não tem mais valor que o de uma declaração inteiramente teórica, não se tira dela nenhum proveito, e parece que, após tê-la postulado, não se pensa mais nisso; como é possível que o próprio Aristóteles  e  seus continuadores não tenham visto melhor tudo aquilo que ela implicava? 

                     É verdade que o mesmo ocorre em  muitos outros casos, e que eles parecem esquecer às vezes coisas tão essenciais quanto a distinção entre o intelecto puro e a razão, após as terem entretanto formulado, e de maneira não menos explícita; são estranhas  lacunas . Deveríamos ver nisso o efeito de certas limitações que fossem inerentes ao espírito ocidental , salvo exceções mais ou menos raras, mas sempre possíveis? Isto   pode  ser verdade numa certa medida, mas, entretanto não se deve crer que a intelectualidade ocidental tenha   sido em geral tão estritamente limitada, outrora, quanto na época moderna. Só que doutrinas como estas não são afinal de contas mais do que doutrinas exteriores — bem  superiores a muitas outras, já que abrangem apesar de tudo  uma parte de metafísica verdadeira, mas sempre misturada  à considerações de outra ordem, que, por seu lado, nada têm de metafísica... Da nossa parte, temos a certeza de que no Ocidente já existiu algo de diferente, na Antiguidade e na Idade Média; que houve, para uso de uma elite, doutrinas puramente metafísicas e que podemos dizer completas, incluindo a mencionada realização,  a qual, para a maior parte dos modernos, é sem dúvida uma coisa difícil de conceber; se o Ocidente perdeu  também  totalmente a lembrança disso, é que ele rompeu com suas próprias tradições, e eis por que a civilização moderna é uma civilização  anormal e desviada. 

              Se o conhecimento teórico fosse por si mesmo a sua própria finalidade, se a metafísica devesse parar nisso, já seria alguma coisa, seguramente, mas seria inteiramente insuficiente. A despeito da certeza verdadeira - mais forte ainda que uma certeza matemática - que já está ligada a um tal conhecimento, ele não seria, em suma, senão um análogo, numa ordem incomparavelmente superior, daquilo que na sua ordem inferior, terrestre e humana, é a especulação científica e filosófica. Não é aí que deve estar a metafísica; que outros se interessem por um "jogo de espírito" ou por aquilo que pode parecê-lo, é assunto que somente a eles lhes diz respeito; quanto a nós, as coisas desse gênero nos são antes indiferentes, e pensamos que as curiosidades do psicólogo devem ser perfeitamente alheias ao metafísico. Para este, aquilo de que se trata é de conhecer aquilo que é, e de conhecê-lo de tal modo que ele mesmo seja, real e efetivamente, tudo aquilo que conhece. 

              Quanto aos meios da realização metafísica, bem sabemos qual objeção podem fazer, naquilo que lhes concerne, aqueles que crêem dever contestar a possibilidade dessa realização. Esses meios, com efeito, devem estar ao alcance do homem; devem, nos primeiros estágios, ao menos, ser adaptados às condições do estado humano, já que é nesse estado que se encontra atualmente o ser que, partindo daí, deverá tomar posse dos estados superiores. É, portanto, nas formas que pertencem a este mundo, onde se situa a sua manifestação presente, que o ser tomará um ponto de apoio para elevar-se acima deste mesmo  mundo; palavras , signos simbólicos, ritos ou procedimentos preparatórios quaisquer, não têm outra razão de ser nem outra função: como já dissemos, são suportes e nada mais. Mas, dirão alguns, como é possível que esses meios puramente contingentes produzam um efeito que os ultrapassa imensamente, que é de uma ordem inteiramente outra que não aquela à qual eles mesmos pertencem? Faremos desde logo notar que eles não são, na realidade, mais do que meios acidentais, e que o resultado que eles ajudam a obter não é de maneira alguma um efeito deles; eles colocam o ser nas disposições requeridas para chegar mais facilmente ao resultado, e nada mais. Se a objeção que temos em vista fosse válida nesse caso, ela valeria igualmente para os ritos religiosos, - para os sacramentos , por exemplo - onde a desproporção não é menor entre o meio e o fim; alguns daqueles que formulam tal objeção talvez não tenham nem sequer pensado nisso. Quanto a nos, não confundimos um simples meio com uma causa, no sentido verdadeiro desta palavra, nem encaramos a realização metafísica como um efeito do que quer que seja, porque ela não é produção de alguma coisa que não exista ainda, mas a tomada de consciência daquilo que é, de uma maneira permanente e imutável, fora de toda sucessão, - temporal ou qualquer outra - pois todos os estados do ser, encarados em seu principio, estão em perfeita simultaneidade no eterno presente. 

               Não vemos, portanto, nenhuma dificuldade em reconhecer que não existe medida comum entre a realização metafísica e os meios que a ela conduzem — ou, se quiserem,os meios que a preparam. Eis, de resto, por que nenhum desses meios é estritamente necessário, de uma necessidade absoluta, ou, ao menos, não existe mais do que uma única preparação verdadeiramente indispensável, e esta e o conhecimento teórico. Este, por outro lado, não poderia ir muito longe, sem um meio que devemos assim considerar como aquele que desempenhará o papel mais  importante e mais constante: esse meio é a concentração; e aí reside alguma coisa de absolutamente estranho, de contrário mesmo, aos hábitos mentais do Ocidente moderno, onde tudo não tende senão à dispersão e à mudança incessante. Todos os outros meios não são  mais  do que secundários em relação a esse: eles servem sobretudo para favorecer a concentração, e também para harmonizar entre eles os diversos elementos da individualidade humana, a fim de preparar a comunicação efetiva entre essa individualidade e os estados superiores   do  ser. 
         
                 Estes meios poderão aliás, no ponto de partida, ser quase indefinidamente variados, pois, para cada indivíduo, deverão ser apropriados à sua natureza especial, conformado às suas aptidões e às suas disposições particulares. Em seguida, as diferenças irão diminuindo pois se trata de Vias múltiplas que tendem todas para o mesmo objetivo; e, a partir de certo estágio, toda a multiplicidade terá desaparecido; mas então os meios contingentes e individuais já terão acabado de desempenhar seu papel. Esse papel, para mostrar que ele não é de maneira alguma necessário, certos hindus comparam-no ao de um cavalo, com a ajuda do qual o homem chegará mais rápida e facilmente ao termo da viagem, mas sem o qual ele também poderia chegar. Poderíamos negligenciar os ritos, os procedimentos diversos indicados em vista da realização metafísica e, não obstante, apenas pela fixação constante do espírito e de todas as potências do ser no objetivo desta realização, atingir finalmente este propósito supremo; mas, se existem meios que tornam o esforço menos penoso, porque negligenciá-los voluntariamente? Será uma confusão entre o contingente e o absoluto o fato de levarmos em conta as condições do estado humano, já que é deste estado,  ele mesmo contingente, que somos obrigados efetivamente a partir para a conquista desses estados superiores , e depois para a conquista do estado supremo e incondicionado? 

                      Indiquemos agora, segundo os ensinamentos que são comuns a todas as doutrinas tradicionais do Oriente, as principais etapas da realização metafísica. A primeira, que não é mais do que preliminar, de certo modo, opera-se nos domínios humanos, e não se estende ainda para além dos limites da individualidade. Ela consiste numa extensão indefinida dessa individualidade, da qual a modalidade corporal, a única que está desenvolvida no homem comum, não representa mais do que uma porção muito mínima; mas é dessa modalidade corporal que se deve partir, de fato, e por isto se usam, para começar, meios emprestados à ordem sensível, mas que deverão, de resto, ter uma repercussão nas outras modalidades do ser humano. A fase da qual falamos é em suma a realização ou o desenvolvimento de todas as possibilidades que estão virtualmente contidas na individualidade humana, que constituem como que prolongamentos múltiplos dela, estendendo-se em diversos sentidos para alem do domínio corporal e sensível; e é através desses prolongamentos .que se poderá em seguida estabelecer a comunicação com outros estados. 

                    Essa realização da individualidade integral é designada por todas as tradições como a restauração daquilo que elas chamam "o estado primordial", o estado que é encarado como o do homem verdadeiro, e que escapa, já, a certas limitações características do estado comum, notadamente àquela que é devida à condição temporal. O ser que atingiu este "estado primordial" ainda não é mais do que um indivíduo humano, ele não está na posse efetiva de nenhum estado supra-individual ; e, no entanto, está desde já liberto do tempo, a sucessão aparente das coisas transformou-se para ele em simultaneidade; ele possui uma faculdade que é desconhecida ao homem comum e que pode se chamar o "sentido da eternidade". Isto é de extrema importância, pois aquele que não pode sair do ponto de vista da sucessão temporal e encarar todas as coisas de uma maneira simultânea é incapaz da menor concepção de ordem metafísica. A primeira coisa a fazer, para quem queira chegar verdadeiramente ao conhecimento metafísico, é colocar-se fora do tempo, diríamos, de bom grado, no "não-tempo", se uma tal expressão não devesse parecer demasiado singular e inusitada. Essa consciência do intemporal  pode, aliás, ser atingida de uma certa maneira, sem dúvida muito incompleta, mas já real, entretanto, bem antes de que seja obtido em sua plenitude esse "estado primor¬dial" de que acabamos de falar. 

                   Perguntarão , talvez: por que essa denominação de "estado primordial"? É que todas as tradições, inclusive as do Ocidente (pois a Bíblia mesma não diz outra coisa), estão de acordo ao ensinar que esse é o estado normal nas origens da humanidade, enquanto que o estado presente não é mais do que o resultado de uma decadência, o efeito de uma espécie de materialização progressiva que se produziu no curso das eras, através da duração de um certo ciclo. Não acreditamos na "evolução", no sentido que os modernos dão a esta palavra; as hipóteses auto-denominadas científicas que eles imaginaram não correspondem de forma alguma à realidade. Não é possível, aliás, fazer aqui mais do que uma simples alusão à teoria dos ciclos cósmicos, que está particularmente desenvolvida nas doutrinas hindus; seria sair do nosso assunto, pois a cosmologia não é a metafísica, se bem que dela dependa bastante estreitamente; não é mais do que uma aplicação da metafísica à ordem física, e as verdadeiras leis naturais não são mais do que conseqüências, num domínio relativo e contingente, dos princípios universais e necessários. 

                 Voltemos  à  realização metafísica: sua segunda fase relaciona-se aos estados supra-individuais, mas ainda condicionados, se bem que suas condições sejam inteiramente diversas daquelas do estado humano. Aqui, o mundo do homem, onde estávamos ainda no estágio precedente, é inteira e definitivamente ultrapassado. É preciso dizer mais: o que é ultrapassado é o mundo das formas  em sua acepção mais geral, incluindo todos os estados individuais quaisquer que sejam, pois a forma é a condição comum a todos esses estados, é aquilo pelo qual se define a individualidade como tal. O ser, que já não pode mais ser dito humano, saiu doravante  da  "corrente das formas", segundo a expressão extremo-oriental. Haveria, aliás, outras distinções a fazer, pois esta fase pode-se subdividir: ela comporta, na realidade, muitas etapas, desde a obtenção de estados que, se bem que informais, pertencem ainda à existência manifestada,  até o grau de universalidade que é aquele do ser puro. 

                   No entanto, por elevados que sejam esses estados em relação ao estado humano, por afastados que estejam deste, ainda não são mais do que relativos, e isto é verdadeiro mesmo quanto ao mais alto dentre eles, que é aquele que corresponde ao Princípio de toda manifestação. Sua posse não é, portanto, mais do que um resultado transitório, que não deve ser confundido com o propósito último da realização metafísica; é para além do ser que reside este propósito, em relação ao qual  todo o resto não é mais do que encaminhamento e preparação. Esse propósito supremo é o estado absolutamente incondicionado, liberto de toda limitação; por esta razão mesma, ele é inteiramente inexprimível, e tudo aquilo que se pode dizer dele não se traduz senão em termos de forma negativa: negação dos limites que determinam e definem toda existência em sua relatividade. A obtenção deste estado é o que a doutrina hindu chama a "Libertação", quando o enfoca em relação aos estados condicionados, e também de "União", quando o enfoca em relação ao Princípio supremo. 

                 Nesse estado incondicionado, aliás, reencontram-se em princípio todos os outros estados do ser - mas transformados, separados das condições especiais que os determinavam enquanto estados particulares. O que subsiste é tudo aquilo que tem uma realidade positiva, pois é aí que tudo tem seu princípio; o ser "liberto" está verda¬deiramente em posse da plenitude das suas possibilidades. Aquilo que desapareceu foram somente as condições limitativas, cuja realidade é inteiramente negativa,pois que não representam mais do que uma "privação", no sentido em que Aristóteles entendia esta palavra. Igualmente, bem longe de ser uma espécie de aniquilação, como acreditam alguns ocidentais, esse estado final é a absoluta plenitude, a realidade suprema, em face da qual todo o resto não é mais que ilusão. 

                  Acrescentamos ainda que todo resultado, mesmo parcial, obtido pelo ser no curso da realização metafísica, é obtido de uma maneira definitiva. Esse resultado constitui, para esse ser, uma aquisição permanente, que nada poderá jamais fazê-lo perder; o trabalho realizado nessa ordem, mesmo que venha a ser interrompido antes do termo final, está feito de uma vez por todas, pela razão mesma de estar fora do tempo. Isto e verdadeiro mesmo quanto ao conhecimento teórico, pois todo conhecimento traz seu fruto em si mesmo, sendo, nisto, bem diferente da ação, que não é mais do que uma modificação momentânea do ser, e que é sempre separada dos seus efeitos. Estes, de resto, são do mesmo domínio e da mesma ordem de existência daquilo que os produziu; a ação não pode ter por efeito libertar da ação, e suas conseqüências não se estendem além dos limites da individualidade, enfocada aliás na integralidade da extensão de que é suscetível. A ação, qualquer que seja, não sendo oposta à ignorância, que é a raiz de toda limitação, não poderia fazê-la desaparecer: só o conhecimento dissipa a ignorância, como a luz do sol dissipa as trevas, e é então que o "Si", o eterno e imutável princípio de todos os estados manifestos e não-manifestos, aparece em sua suprema realidade. 

                     Após esse esboço bastante imperfeito, e que não dá seguramente mais do que uma fraca idéia daquilo que pode ser a realização metafísica, deve-se fazer uma observação que é inteiramente essencial para evitar graves erros de interpretação: é que tudo aquilo de que se trata aqui não tem nenhuma relação com fenômenos quaisquer, nem mais nem menos extraordinários. Tudo aquilo que é fenômeno é de ordem física; a metafísica está para além dos fenômenos; e tomamos esta palavra em sua mais ampla  generalidade. Resulta daí, entre outras conseqüências, que os estados dos quais acabamos de falar não têm absolutamente nada de "psicológico"; é preciso dizê-lo claramente, porque às vezes se produziram, com respeito a isso, singulares confusões. A psicologia, por definição mesma, não poderia abranger senão os estados humanos, e ainda, tal como a entendem hoje, ela não atinge mais do que uma zona muito restrita nas possibilidades do indivíduo, que se estendem bem mais longe do que os especialistas dessa ciência podem supor. O indivíduo humano, com efeito, é ao mesmo tempo muito mais e muito menos do que geralmente se pensa no Ocidente; ele é muito mais em razão de suas possibilidades de extensão indefinida para além da modalidade corporal,  à qual  se reporta em suma  tudo aquilo que geralmente se estuda a respeito; mas ele é também muito menos, já que, bem longe de constituir um ser completo e suficiente em si mesmo, não é mais do que uma manifestação exterior, uma aparência fugidia revestida pelo ser verdadeiro,  e pelo qual a  essência deste não é de forma alguma afetada em sua imutabilidade. 

                     É preciso insistir nesse ponto, de que o domínio metafísico está inteiramente fora do mundo  fenomênico, porque os modernos, habitualmente, não conhecem nem procuram outra coisa senão os fenômenos; é por estes que eles se interessam quase que exclusivamente, como de resto o testemunha o desenvolvimento que deram às ciências expe¬rimentais; e sua inaptidão metafísica procede da  mesma tendência. Sem dúvida pode ocorrer que certos fenômenos especiais se produzam no curso do trabalho da realização metafísica, mas de uma maneira inteiramente acidental; é um resultado antes prejudicial, pois as coisas desse gênero não podem ser senão um obstáculo para aquele que venha a ser tentado a atribuir-lhes qualquer importância . Aquele que se deixe parar e desviar da sua via pelos fenômenos, aquele, sobretudo, que se deixe ir em busca dos "poderes" excepcionais, tem bem pouca chance de levar a realização mais longe do que o grau ao qual   já   tenha  chegado no instante em que sobrevém esse desvio. 

                     Essa observação leva naturalmente a retificar algumas interpretações errôneas que correm a respeito do termo "Yoga"; não chegaram a pretender, às vezes, com efeito, que aquilo que os hindus designam por esta palavra fosse o desenvolvimento de certos poderes latentes do ser humano? Aquilo que acabamos de dizer basta para mostrar que uma tal definição deve ser rejeitada. Na realidade, essa palavra "Yoga" é aquela que traduzimos, tão literalmente quanto possível, por "União"; e o que ela designa propriamente é, portanto, o objetivo supremo da realização metafísica; e o "Yogue", se queremos entender a palavra no sentido mais estrito, é somente aquele que atingiu esse objetivo. Todavia, é verdade que, por extensão, esses mesmos termos são, em certos casos, aplicados também a estágios preparatórios à "União" ou mesmo a simples meios preliminares, e ao ser que atingiu os estados correspondentes a esses estágios, ou que emprega esses meios para atingi-los. Mas como poderíamos sustentar que uma palavra cujo sentido primeiro é "União" designe propriamente e primitivamente exercícios respiratórios ou alguma outra coisa deste gênero? Tais e outros exercícios, baseados geralmente naquilo que podemos chamar a ciência do ritmo, figuram efetivamente entre os meios mais freqüentes usados em vista da realização metafísica; mas que não se tome como fim aquilo que não é mais do que um meio contingente e acidental, e que não se tome igualmente pela significação original aquilo que não é mais do que uma acepção secundária e mais ou menos desviada. 

                 Ao falar daquilo que é primitivamente o "Yoga" e ao dizer que esta palavra sempre designou essencialmente a  mesma coisa, pode-se pensar em colocar uma questão da qual nada dissemos até aqui: qual a origem dessas doutrinas  tradicionais, das quais emprestamos todos os dados que  expomos? A resposta é muito simples, embora arrisque suscitar os protestos daqueles que desejam tudo encarar sob o ponto de vista histórico: é que não há origem; queremos dizer, com isto, que não há origem humana, suscetível  de ser determinada no tempo. Em outros termos, a origem  da tradição, (se é que esta palavra ‘origem’ tem ainda uma razão de ser em semelhante caso), é "não-humana", tal como a metafísica mesma. As doutrinas desta ordem não "apareceram", num momento qualquer da história da humanidade: a alusão que fizemos ao "estado primordial" e também,   de outro lado, aquilo que dissemos do caráter intemporal de tudo o que é metafísico, deveriam permitir compreender sem demasiada dificuldade, com a condição de que nos resignemos a admitir, contrariamente a certos preconceitos, que existem coisas às quais o ponto de vista histórico não é  de maneira alguma aplicável. A verdade metafísica é eterna; e por isto mesmo, sempre houve seres que puderam conhecê-la real e totalmente. O que pode mudar são apenas formas exteriores, meios contingentes; e esta mudança mesma nada têm daquilo a que os modernos chamam  "evolução"; ela não é mais do que uma simples adaptação a tais ou quais circunstâncias particulares, às condições específicas de uma raça ou de uma época determinada. Daí resulta a multiplicidade das formas; mas o fundo da doutrina não é de maneira alguma modificado ou afetado  por ela, tanto quanto a unidade e a identidade essen¬ciais do ser não são alteradas pela multiplicidade de seus estados de manifestação. 

                       O conhecimento metafísico, e a realização que ele implica para ser verdadeiramente tudo aquilo que deve ser, são portanto possíveis por toda a parte e sempre, ao menos em princípio e se esta possibilidade for enca¬rada sob um prisma, de certo modo, absoluto; mas, de fato, - praticamente, se podemos dizê-lo, e num sentido  relativo - são eles igualmente possíveis em qualquer meio que seja, sem levar na mínima conta as contingên¬cias? Quanto a isto, seríamos muito menos afirmativos, ao menos no que diz respeito à realização; e isto se explica pelo fato de que esta, em seu começo, deve  tomar um ponto de apoio na ordem das contingências. Pode haver condições particularmente desfavoráveis, como aquelas que oferece o mundo ocidental moderno; tão desaforáveis que, nele, um trabalho desses é quase impossível, e poderia mesmo ser perigoso empreendê-lo, na  ausência de todo apoio fornecido pelo meio, e num ambiente que não pode senão contrariar e mesmo aniquilar os esforços daquele que a isso se dedique. Pelo contrário, as civilizações que chamamos tradicionais são organizadas de tal modo que nelas se pode encontrar ajuda  eficaz , que sem dúvida não é rigorosamente indispensável, como tudo o que é exterior, mas sem a qual é entretanto bem difícil obter resultados efetivos. Existe nisso alguma coisa que ultrapassa as forças de um indivíduo humano isolado, mesmo que esse indivíduo possua, de resto, as qualificações requeridas. Igualmente não desejaríamos encorajar ninguém, nas condições presentes, a engajar-se inconsideradamente num tal empreendimento; e isto nos conduz diretamente à conclusão. 

                 Para nós, a grande diferença entre o Oriente e o Ocidente (e trata-se aqui exclusivamente do Ocidente moderno) , a única diferença, mesmo, que é verdadeiramente essencial, pois todas as outras derivam dela, é esta: de uma parte, conservação da tradição, com tudo o que ela implica; de outra, esquecimento e perda dessa mesma tradição; de um lado, manutenção do conhecimento metafísico; de outro, ignorância completa de tudo que diz respeito a esse domínio. Entre civilizações que abrem à sua elite as possibilidades que tentamos fazer entrever, que lhes dão os meios mais apropriados para realizar efetivamente essas possibilidades, e que permitem, pelo menos a alguns, realizá-las, assim, em sua plenitude, entre estas civilizações tradicionais e uma civilização que se desenvolveu num sentido puramente mate¬rial, como poderíamos encontrar uma medida comum? E quem .portanto,a menos que esteja cego por não sei qual partidarismo, ousará pretender que a superioridade material compense a inferioridade intelectual? Intelectual, afirmamos, mas entendendo por este termo a verdadeira intelectualidade, aquela que não se limita ã ordem humana nem â ordem natural, aquela que torna possível o conhecimento metafísico puro em sua absoluta transcendência. Parece-me que basta refletir um instante nessas questões para não ter nenhuma dúvida nem hesitação alguma quanto à resposta que lhes convém dar. 

                 A superioridade material do Ocidente moderno é incontestável ; ninguém a contesta, de fato, mas ninguém a inveja. É preciso ir mais longe: com esse desenvolvimento material excessivo, o Ocidente arrisca-se a perecer por causa dele, cedo ou tarde, se não se recuperar a tempo, e se não chegar a considerar seriamente o "retorno às origens”, segundo uma expressão que é de uso em certas escolas de esoterismo islâmico. De diversos lados, fala-se muito, hoje em dia, de "defesa do Ocidente"; mas, infelizmente, não se parece compreender que é sobretudo contra si mesmo que o Ocidente tem necessidade de ser defendido; que é de suas próprias tendências atuais que vêm os principais e os mais temíveis de todos os perigos que o ameaçam realmente. Seria bom meditar sobre isso com certa profundidade, e não seria excessivo convidar a isso todos aqueles que ainda são capazes de refletir. É com isso, também, que terminaremos nossa exposição, feliz caso tenhamos podido fazer, se não compreender plenamente, ao menos pressentir alguma coisa daquela intelectualidade oriental cujo equivalente não se encontra mais no Ocidente, e dar uma visão, por imperfeita que seja, do que é a metafísica verdadeira, o conhecimento por excelência, que é, como o dizem os textos sagrados da Índia, o único inteiramente verdadeiro, absoluto, infinito e supremo.



(Fonte: Instituto René Guénon: Português do Brasil)